A História do PC - 1987/89: Computação Corporativa
 

Em 1987, o mundo do PC estava pronto para algo novo, o que realmente aconteceu no mês de abril, quando a IBM anunciou sua oferta mais ambiciosa até então.

As primeiras máquinas PS/2 da IBM iam do Modelo 30 (com um Processador Intel 8086 de 8 MHz e duas unidades de disco flexíveis de 3,5") aos Modelos 50, 60 (ambos com CPUs 286 de 10 MHz) e 80 (a primeira máquina da IBM baseada em 386, apresentando um Processador de 16 MHz ou 20 MHz).

As máquinas PS/2 trouxeram avanços sobre o padrão PC em muitos aspectos. Embora outras companhias, em especial a HP e a Apple, tenham sido as primeiras a apresentar as unidades de disco flexível de 3,5", o PS/2 fez delas um padrão, em parte porque não era possível encontrar uma unidade interna de 5,25" em vários destes modelos. E, embora outras companhias tenham anunciado antes as placas de vídeo que forneciam a resolução de vídeo de 640 por 480, o PS/2 a trouxe com o novo padrão Video Graphics Array (VGA), que continua sendo o padrão nos dias atuais. O VGA era um grande avanço sobre o padrão EGA anterior, que oferecia a resolução de 640 por 350. Agora, cada pixel ficava mais "quadrado" e as imagens, menos distorcidas. O VGA também permitia a exibição simultânea de uma maior quantidade de cores na tela.

O aspecto mais controverso do PS/2, no entanto, foi a introdução de um novo barramento para as placas de extensão - a arquitetura Micro Channel. A Micro Channel oferecia enormes vantagens sobre o antigo barramento utilizado no AT: era mais rápido, simplificava o processo de configuração das placas e aumentava a capacidade de trabalho simultâneo de duas placas de extensão.

   
 
Mas a Micro Channel não era compatível com as máquinas IBM anteriores e com as centenas de placas de expansão já existentes no mercado. Além do mais, a IBM inicialmente cobrou dos desenvolvedores uma quantia muito maior por uma licença de uso da arquitetura Micro Channel do que para o antigo projeto AT. Esta era a tentativa da IBM de retomar sua liderança técnica - e a fatia do mercado - dos desenvolvedores de clones e a companhia estava disposta a ir longe, a ponto de abandonar a compatibilidade de hardware.

Em novembro, a IBM já cantava a vitória pela venda de um milhão de dispositivos PS/2 em sete meses, um espaço de tempo quatro vezes menor que o necessário para a venda de um milhão de unidades de seu PC original.

Os desenvolvedores de máquinas compatíveis estudaram as novas especificações e, gradualmente, foram se adaptando à nova unidade de 3,5" (embora a maioria dos desenvolvedores de software tenha sido forçada a fornecer seus programas em discos de 3,5" e 5,25" ainda por um bom tempo) e aos padrões de vídeo VGA.
 
  
 
Mas a Compaq, a AST e outras companhias que acompanharam a liderança da IBM nos computadores baseados em 8088 e, depois, 286 (compatíveis com AT) torceram o nariz para as taxas de licenciamento e a falta de compatibilidade descendente da arquitetura Micro Channel. Em vez disto, apareceram, no ano seguinte, com uma alternativa chamada EISA (Enhanced Industry Standard Architecture, ou Arquitetura Industrial Padrão Avançada) que oferecia diversas vantagens, como um caminho de dados de 32 bits, apesar de manter a compatibilidade com as placas de expansão 16 bits existentes.

Durante anos, a indústria discutiu os méritos da Micro Channel e do EISA. Eventualmente, a Micro Channel ganhava o suporte entre os clientes da IBM e a EISA reunia adeptos para uso em servidores de PCs. Mas a maioria dos usuários finais continuava a comprar placas de extensão que ainda eram compatíveis com AT, que ficaram conhecidas como placas ISA (de Industry Standard Architecture, ou Arquitetura Industrial Padrão). A era em que a IBM podia ditar - sozinha - as mudanças nos padrões industriais de hardware para PC, tinha chegado ao fim.

Entretanto, se o mundo do hardware seria fragmentado após o anúncio do PS/2, o efeito deste desenvolvimento não era nada, comparado à reação ao anúncio feito, ao mesmo tempo, sobre um novo sistema operacional desenvolvido em conjunto pela IBM e pela Microsoft: o OS/2.
 
Neste anúncio inicial, os executivos das duas companhias se levantaram e proclamaram seu desejo de fazer do OS/2 o substituto DOS. Afinal, disseram, não era gráfico, não oferecia uma interface com o usuário padronizada, só podia executar um programa por vez e ainda era oprimido pelo limite de endereço de memória de 640 Kb. Já que a Microsoft havia falado, durante algum tempo, sobre um "DOS multitarefa" e a IBM tinha deixado escapar que estava desenvolvendo sua própria alternativa, as duas companhias assinaram um contrato de desenvolvimento em conjunto, segundo o qual o OS/2 seria o casamento destas duas propostas.

Quase desde o princípio, porém, este contrato foi problemático. O OS/2 deveria ser lançado, inicialmente, em duas versões. A primeira - lançada no final de 1987 - seria o OS/2 1.0, que ofereceria a multitarefa preemptiva e o suporte a grandes aplicativos, com até 16 Mb, que era o limite do Processador 286. Mas a verdadeira versão gráfica - a que atraiu a atenção da maioria dos usuários e desenvolvedores seria o OS/2 1.1 com o Presentation Manager, lançada apenas em outubro de 1988. O maior problema seriam as questões de compatibilidade. O OS/2 foi escrito, originalmente, para o 286, mas o próprio processador tinha algumas limitações. O 286 havia introduzido o que a Intel chamava de memória "protegida" e a capacidade de elaborar programas que ultrapassavam a barreira dos 640 Kb, mas isto era feito de um modo que, algumas vezes, o tornava incompatível com os programas já existentes baseados em 8088/8086. Uma "caixa de compatibilidade" permitia que os usuários executassem alguns programas DOS existentes, mas as primeiras versões da caixa de compatibilidade não eram tão compatíveis assim; muitos usuários a chamavam de "caixa de penalidade".

 

O 386 da Intel viria resolver muitos destes problemas ao introduzir o que era conhecido como modo 86 Virtual, permitia que uma máquina executasse diversas sessões 8086. O OS/2, no entanto, não trabalharia com o modo virtual ainda por muitos anos. Além disto, havia alguma confusão sobre uma versão isolada do OS/2, apenas da IBM, chamada Extended Edition, que adicionaria um gerenciador de base de dados e comunicações. Finalmente, alguns usuários pensavam que o nome OS/2 significava que o sistema operacional funcionaria apenas em máquinas PS/2.

Enquanto isto, a Microsoft continuava trabalhando no Windows, definido pela companhia como um produto que trabalharia sobre o DOS e que seria uma "transição" para o OS/2.

Em 1987, o Microsoft Windows 2.0 melhorava a interface com o usuário do Windows para incluir recursos como a sobreposição de janelas, a capacidade de redimensionamento das janelas e os aceleradores de teclado (teclas de atalho). Deste modo, ele passou a ser muito mais parecido com o Windows e o OS/2 atuais, além de fornecer um melhor suporte aos padrões SAA (de Systems Application Architecture, ou Arquitetura de Aplicativos de Sistema) de interface com o usuário da IBM do que um ano antes do OS/2. Mas esta versão funcionava em modo real compatível com 8088/8086, e não no modo protegido mais sofisticado do 286, ou seja, os aplicativos ainda não faziam muito bem a multitarefa e ainda eram limitados em tamanho.

Ainda naquele ano, o Windows foi dividido em Windows/286 e Windows/386, sendo que o último adicionava capacidades multitarefa, a capacidade de executar aplicativos em máquinas virtuais e o suporte a até 16Mb de memória. O Windows/386 não significa muito hoje em dia, mas, àquela época, era o máximo. E foi ele quem marcou o início da competição entre o OS/2 e o Windows, embora a IBM e a Microsoft negassem o fato.
 
 
O mais importante é que tornou-se claro que o Windows e o OS/2 não eram tão compatíveis quanto o prometido inicialmente, já que os dois suportavam modelos muito diferentes para desenhar os gráficos na tela. Isto deixou confusos os desenvolvedores de software, que recebiam, da Microsoft, instruções para elaborarem programas para o Windows com a promessa de que estes poderiam ser facilmente passados para o OS/2 mais tarde e, da IBM, para escreverem seus programas diretamente para o OS/2.
 
  
 

 
Nenhuma das plataformas recebeu muito suporte naquela época. O suporte inicial de aplicativos para a plataforma Windows era um tanto limitado, com exceção do Aldus PageMaker e do Microsoft Excel, lançados em 1987. O espantoso é que não teríamos um Processador de textos completo para Windows até o final de 1989, quando surgiram o AmiPro, da Samma (posteriormente comprado pela Lotus e atualmente vivendo sob o nome Word Pro), e a primeira versão do Microsoft Word. Praticamente todos os principais desenvolvedores prometiam o suporte à versão gráfica do OS/2, mas os aplicativos custavam a aparecer.

O mundo do PC, pelo contrário, se acomodava num mar de aplicativos DOS e ambientes de rede básicos. De maneira lenta, porém decidida, os computadores tornavam-se parte da vida comercial de praticamente todos os trabalhadores de colarinho branco. Não eram excitantes, mas certamente funcionavam.

A despeito de todas as promessas, o mundo da computação no final da década seguia com padrões que já existiam há anos, como o DOS e o barramento ISA, e com um monte de propostas para o futuro - porém sem uma direção clara. A IBM não havia conseguido estabelecer um novo rumo para si mesma e para a indústria e nenhum outro desenvolvedor havia realmente se destacado com definições de padrões.